A dor que fica e o que fazemos com ela

Dos stories para o texto: uma tentativa de organizar o que ainda dói.

Há dias que marcam uma cidade para sempre.

O que aconteceu no Instituto São José, em Rio Branco, não foi apenas um episódio trágico. Foi uma ruptura — um rasgo no tecido da nossa sociedade. Um acontecimento que segue reverberando em silêncio: nas famílias, nos corredores da escola, nas conversas que agora carregam mais cuidado, mais ausência, mais dor.

O sentimento que permanece não é apenas o choque. É uma tristeza profunda, difícil de traduzir. Daquelas que não cabem em números, boletins ou atualizações. Uma tristeza que se instala e transforma.

Diante de algo assim, é comum buscar respostas rápidas. Apontar culpados. Simplificar o que, na verdade, é complexo demais. Mas talvez esse não seja o caminho mais necessário agora.

Talvez o que mais falte seja atenção.

Atenção aos sinais.

Ninguém chega a um ato extremo partindo do nada. Há quase sempre um percurso silencioso antes disso: mudanças de comportamento, isolamento, dores que não encontram escuta. Sinais que passam despercebidos no ritmo acelerado da vida — dentro de casa, nas escolas, entre colegas.

Olhar para isso não é justificar. É reconhecer que ignorar esses sinais tem um custo alto demais.

Também é impossível ignorar outra dimensão dessa tragédia: o acesso a armas. Quando um instrumento feito para ferir está ao alcance de mãos despreparadas, o risco deixa de ser distante. Ele se torna concreto. Imediato. E, como vimos, devastador. Não se trata de ideologia, mas de responsabilidade coletiva — de controle, de cuidado e de prevenção.

E, no centro de tudo, estão as vítimas.

Pessoas que, em um gesto de coragem, tentaram proteger outros. Que estavam vivendo um dia comum e foram atravessadas por uma situação limite. Existe heroísmo no cuidado. Na tentativa de proteger. E isso precisa ser lembrado com respeito, não apenas agora, mas ao longo do tempo.

O que fica é uma cidade mais sensível — e também mais consciente da própria fragilidade.

A pergunta que permanece não é apenas o que aconteceu, mas o que será feito a partir disso.

Porque a dor continua.

E o que fazemos com ela é o que define o que vem depois.

Nenhuma cidade deveria se acostumar com esse tipo de cicatriz.

André Cajarana, pai

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